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quarta-feira, 21 de março de 2018

A colheita


Equinócio de Outono -2018

Esse ritual teve dois atos.

1º ato

Foto pessoal


Eu espero o outono como uma criança espera o Natal. Eu e ele somos amigos de longa data e sempre que lembro do inicio do meu caminhar, é nessa estação que minhas lembranças residem. A sensação daquele ventinho timidamente gelado que dura poucos segundo, é esperada com paixão todos os anos. E quando ele chega, traz em si as palavras há muito sussurradas pelos antigos.

É época de cuidar da casa e de tudo o que se relaciona com ela e como estou numa vibe bem caseira, coloquei as mãos á obra. Preparei o meu lugar de poder, pensei ações para serem executadas durante esse período, troquei impressões com as amigas bruxas.  

A noite caiu, o cheiro de canela permeou meu lar, o material foi colocado a postos, os banhos foram tomados. Todos em casa dormiam e eu fui cuidar daquilo que tem que ser feito. Sem pedidos, fiz um grande balanço de tudo o que colhi nos últimos tempos. Nesses momentos me dou conta do quanto a minha vida é especial, rica, graciosa. Mesmo os momentos difíceis que passo, esses calos na alma; me fazem querer agradecer essa mulher que me tornei/torno a cada curva do caminho. Eu lutei muito para ser essa que sou e tenho lutado cada dia mais e principalmente contra mim mesma, portanto  perceber em dias de maré , o meu poder é algo que ainda me enche de maravilhamento. E não é isso que artistas precisam para viver? O que seria de mim sem o maravilhamento que as coisas em causam! E me dar esse olhar é tão incrível que não dá para resumir num pequeno texto como esse.

Cheiros, músicas, agradecimentos, energias.

Velas acesas, agradecimentos feitos. Fico a mirar as chamas dançando e deixando a luz me levar em seu colo.

2º ato

De repente, meu filho aparece com seus passinhos de meia e fica encantado com as muitas velas acesas e outras tantas em cima da mesa. Conta e entende que aquelas eram para as pessoas da casa. Só que ele detectou dois problemas muito sérios e foi solene em suas colocações: os cachorros moram aqui e não tem velas pra eles! E precisamos acender uma vela na rua ( na rua!!!) para as pessoas não ficaram doentes.

A vela negociada.Na rua não pode,ok?- Foto pessoal


Tivemos um momento de conversa onde tive que me abrir para negociações referentes às velas. Depois perguntei se ele queria saber como era o processo de acendê-las, que era um pouco diferente das velas de aniversário. Ele se mostrou muito disposto a aprender e assim foi. Ensinei de maneira que sua mente de 5 anos pudesse compreender, inclusive normas de segurança. Tudo feito, ele me chamou para uma conversa e ficamos sentados conversando até nem sei que horas.

Foi a primeira vez que ele participa ativamente de um ritual, mesmo que o final dele. Não o educo dentro da minha fé (que é a do pai também), pois pensamos que crianças precisam saber quem são e como agir no mundo ,então fé e espiritualidade nunca foi um norte por aqui. Não diretamente. Não há deuses, há os elementos, a lua que o lugar onde os mortos vivem (!!) e o rei sol pai das estrelas. Ele cria sua mitologia e elas viram histórias.

Confesso que meu coração se aqueceu absurdamente com a atitude dele, mas fiquei atenta aos significados que ele trazia para mim. Aquele par de olhos de obsidiana são atentos e aquele coração de cristal sente mais do mundo do que eu posso imaginar. Ele se apresenta a mim aos poucos e eu o aceito o que ele me oferta. E assim vãos construindo uma relação que vai além de rótulos.

Foi o ritual mais lindo de toda a minha vida! Eu colhi beleza através do meu filho, a melhor colheira do mundo!

segunda-feira, 19 de março de 2018

(Re) Aprender




Eu tenho meditado de uma maneira muito minha. Não é nada programado, mas é algo que preciso que se torne um hábito. Geralmente antes de dormir tento limpar meus pensamentos com aquela técnica bem bobinha de deixar ir num barquinho aqueles pensamentos perturbadores, sabe como? E dar atenção plena àqueles pensamentos que realmente valem a pena. E é como uma luzinha acesa piscando “AQUI! AQUI!” E com isso vou tentando organizar esse turbilhão que há dentro de mim. Percebo que vou revisitando e revisando antigas ideias, daquelas que eu já havia dado como mortas.

Nasci e cresci dentro de uma família kardecista de longa data, família que se interessava por fenômenos sobrenaturais de diversas formas e que alguns levaram o estudo e prática adiante. Quando eu nasci a coisa toda já estava meio esquecida então só participei da teoria das coisas. Sempre ouvi, mas me colocaram tanto medo e distanciamento que ou eu achava chato ou eu tinha medo. Quando cresci joguei tudo fora e descartei toda e qualquer possibilidade de estudo do kardecismo, birra mesmo. Normal quando se está buscando a própria identidade!

Pois bem, eis que me deparo vendo vídeos em canais do YouTube  onde os conceitos aprendidos outrora são expostos de maneira mais moderna e objetiva, sem perder a ideia central. E percebi ( Ohh descobri a pólvora,heim?) que esses conceitos estão comigo o tempo todo, mesmo eu os negando. Enfim, cresci e aceitei que a base que meu pai me deu ainda está aqui um pouco mais polida e com uma identidade além da dele.

Mas por que essa escrita de hoje?

Para eu não me esquecer de rir de mim mesma!!! Ah, quem não teve a soberba do ego achando que estava fazendo algo novo e diferenciado? E aí caímos na realidade que nos diz: “ Então queridinha, vc tá fazendo o mesmo que seus antepassados, só que com uma nova roupagem, viu? Baixa essa bola aí e continua andando! ”

Quando a gente sai do estado de negação e passa para o estágio da aceitação ( mas não a aceitação passiva e submissa, heim?) consegue trabalhar melhor com as ferramentas do ofício, seja ele qual for!
E se eu fechar os olhos posso ouvir a gargalhada do meu pai, aquela gargalhada boa que sacudia ele todinho!

terça-feira, 6 de março de 2018

A voz


I am the Voice in the wind and the pouring rain,

I am the Voice of your hunger and pain;
I am the Voice that always is calling you,
I am the Voice
The Voice- Celtic Woman






A sobrinha de um grande amigo se interessou pela Velha Arte. 

Hoje ele me pediu para emprestar um livro nível iniciante, que aliás era dele! Meu coração explodiu de amor,pela oportunidade de ajudar uma caminhante que está interessada e bem orientada.  Eu dei o livro porque é para isso que eles servem, para circular por aí.


Não nego: não tenho a mínima paciência para quem está começando nos dias de hoje. As pessoas se tornaram preguiçosas, acomodadas e dependentes e suas almas ainda estão domadas. E às vezes eu me encaixo nesse padrão, não sou perfeita. Porém esse caso, vindo de quem veio, despertou um comichão em mim, que aliás, está me perturbando há uns dias.

Tenho uns posicionamentos meio confusos  perante as pessoas que se dedicam a instruir os jovens caminhantes.  Ora acho que eles perdem tempo, ora os acho verdadeiros mestres na arte da  paciência . Além de terem fé no outro, é claro. Nunca instruí ninguém, eu só escrevo ou falo o que penso e nem sei se isso faz alguma diferença no mundo fora de mim. Mas,tenho pensando nas boas possibilidades que o mundo sem  fronteiras nos oferta neste momento tão frágil .

Não estou pensando em formar grupos de estudos ou coisas do tipo. Não tenho menor traquejo para ser professora/orientadora. Só tenho pensando em como ajudar essa moçada que está cada vez mais frágil e perdida num mundo repleto  de possibilidades e ilusões. Talvez através da página do Facebook, divulgar eventos, cursos e grupos de estudos que eu realmente conheço e confio, seja um passo. Não sei.

Sinto que o momento é para suavizar a dureza das coisas. Quem tem uma visão mais ampla de espiritualidade pode (e deve) acalmar os ânimos ao seu entorno e mostrar possibilidades de ação. Isso não é carregar ninguém no colo, as escolhas são pessoais, inclusive a escolha de carregar ou não.  Não recomendo que se carregue ninguém, que fique claro! Ensinar a pescar é o lema que não deve ser perdido!

Enfim, deixei um bilhete dentro do livro que essa mocinha ansiosa em breve começará a ler. E espero sinceramente que seu espírito continue indomado, independente se ela abraçar a bruxaria ou não. Tendenciosamente, porém em silencio, torço para que ela seja mais uma a agregar na trilha sagrada! Mas racionalmente, só espero que ela cresça sabendo quem é, o que quer e como agir no mundo.

O chamado ainda é ouvido por aí.



domingo, 4 de março de 2018

A hora da Bruxa




Percebo que os ventos de outono estão a deixar a nossa folhagem velha cair definitivamente.

Muitas de nós sumiram nas brumas , caminhando por sendas diversas, lutando batalhas solitárias, se afastando, silenciando. Vez ou outra, conversas durante esse hiato geral. Angústias compartilhadas e a certeza que o silêncio era necessário. Afastamento.  Foi o tempo de retração.

Percebo desde o auge do Verão que muitas de nós estão num momento de planejamento de ação, repensar caminhos, tirar a poeira dos instrumentos e treinar as mãos e a voz. Há no ar uma vontade de ação.

E há entre os mundos, a necessidade urgente de ação.

Percebo um movimento sutil de expansão entre as caminhantes, que lavam seus instrumentos com água sagrada, pintam novamente os rostos, erguem novamente seus altares. As vozes voltam a ser firmes e o ofício volta a ser exposto. Cada qual com seus planos, cada qual com seus caminhos e credos e  todas unidas pelo mesmo propósito.

Sinto meu coração queimar pelo afeto recebido e pelo respeito conquistado. Não posso mais negar meu poder e não posso mais deixar o meu lugar vago no círculo. Ela novamente me chama. Olhos para os lados e vejo rostos conhecidos, que satisfação reconhecer enfim quem está comigo.

A força dos ventos de outono leva a última folha do meu passado. Varrem minha alma e eu me entrego sem pesar. Preciso e quero seguir em paz. De alívio, danço. Danço como quem acaba de nascer. (Re) nascida sigo meu passos num novo caminho, numa nova paisagem. Piso firme, planejando para que o inverno organize minhas ideias.

Nesse outono serei grata incansavelmente a todos os ventos que limparam o chão da minha vida e a todas as sacerdotisas que me ajudam quando mais preciso de apoio.

E então deixei cair o meu passado pelo abismo do esquecimento, pendurei meus fracassos como as mais lindas medalhas, usei minhas cicatrizes como manual para me tornar forte, me desobriguei de rancores e desilusões, me vesti de esperança e ao fim... pude ser livre .

Kelbin Torres

terça-feira, 27 de fevereiro de 2018

O Vazio do Todo




Existe uma prática muito comum dentro do paganismo que é o uso de imagens de nossos deuses em altares e rituais . Existem imagens lindíssimas por aí, daquelas de cair o queixo e doer o bolso...ahh e como existem! O intuito aqui não é falar o que a imagem/estátua significa de maneira geral, sobre isso existem textos maravilhosos na Web.

Percebo em mim um sentir completamente diferente da maioria. De repente me dei conta e aceitei que eu não gosto de usar imagens nem em ritos, nem em altar de trabalho e nem em nada. Tenho imagens? Algumas. Mas,aquela ânsia de outrora, de possuir em casa as imagens dos meus Deuses mais queridos, de representações físicas deles, desapareceu. Não procurei investigar o motivo e sim aceitar e lidar com essa ausência.

Segui o meu caminho.

A sensação que tenho é de liberdade.

Tenho um compromisso muito sério, um voto selado com Divindades do Egito e todo esse novo pensar/sentir no início me incomodou muito por conta desses votos. Até que percebi que meu maior voto é para uma divindade que nada mais é que o próprio sol. E isso meus amigos, é de uma imensidão infinita e absurdamente abstrata. E comecei a partir dessa compreensão, um caminho muito interessante e que até pouco tempo pensava ser só meu.

Graças a todos os deuses, nós temos internet e nela descobri um caminho muito sui generis dentro da bruxaria que pensa e trabalha exatamente como eu. E que sensação maravilhosa devorar informações que enfim, eu entendo!!!!

Sem nomes e reverenciando forças muito mais antigas que os próprios nomes, tento dia após dia, me conectar com essa encruzilhada sem forma. Mergulho acordada, no mais profundo de mim e me vejo sem esses apetrechos que adquiri ao longo do tempo, da vida, da existência. Saber da existência de caminhos antigos que provavelmente meus antepassados de nome em algum momento esbarraram ou percorreram. Desvendar as névoas que ainda encobrem meus olhos de lá, aceitar minhas limitações, fazer minha parte dentro do nobre ofício, reverenciar essas forças que se apresentaram de maneira sutil e certeira em momento inesperado. É o que busco fazer todos os dias.

Poético você deve estar pensando.

E por que não? - eu lhe respondo.

Entendi que preciso e devo ter o meu modus operandi, mas sem ser inocente. E tenho todo o tempo para isso. Preciso me desconectar de tudo o que não deu certo e me assumir como buscadora.

Confiar .

Não gosto mais da ideia de uma imagem formatada. As coisas que sinto não possuem rosto/corpo. Eu gosto de sentir, de ver com a pele e com o espírito. É como se uma imagem não fosse mais suficiente para me conectar. Tornou-se algo supérfluo para o meu caminhar. Vejo discussões infinitas sobre imagens, as mais bonitas, as desejadas, as muito esperadas e tudo me parece um som distante de um mundo que não é meu. É como flutuar e ver tudo bem longe...

Eu tenho me sentido bem com o externo da minha casa, repleta de companhias  e de coisas que vou magicamente construindo.


Abandonei as imagens porque eu sou minha própria divindade.

domingo, 18 de fevereiro de 2018

Uma carta para mim mesma


       

Minha querida,
        
Escrevo-lhe por saber que vc não está em seus melhores dias. Escrevo-lhe para lembrar que sim, tudo passa e esse momento que lhe aprisiona em que escolhas não lhe são dadas, também passará. Lembra qdo o bebê chorava e vc achava que aquilo nunca teria fim? Lembra das longas horas de amamentação nas madrugadas sem fim e vc achava que aquele bebê mamaria para sempre e que vc nunca mais ia dormir na vida? Ali também não havia escolha e tudo acabou passando. Tudo passa, não se esqueça disso. Eu sei, eu sei, é fácil falar daqui onde estou, mas é deste lugar que posso vislumbrar que vai passar. Lembre-se, vc não está só. Vc é amada!  Apegue-se a essas pessoas que estão contigo nesses momentos: A amiga que lhe lê as cartas e faz suas tardes felizes. A amiga que lhe leva para beber para vc desopilar a mágoa. Aquela psicóloga que lhe dá o direito da voz da raiva. Tanta gente!! O amor da tua vida que segura as suas mãos qdo vc chora de desespero e escuridão.  Tudo é legitimo no seu sentir! Então não se esqueça e se apoie! Lembre-se que vc é seu próprio lar. Chore,chore muito. Chore de raiva,chore de dor, mas chore. Não guarde a dor,pois como disse a poeta: palavra presa é tumor. E lágrimas também. Nós não queremos adoecer. Pinte suas cores, pinte suas telas e transforme toda sua dor. Mesmo que ninguém veja, pinte. Pinte a dor como Frida pintou. Escreva compulsivamente. Faça sua magia. Vc sabe que esses para vc são seus melhores momentos de poder. Faça tudo o que lhe digo com dignidade. Mesmo qdo vc se descabela, vc é digna. O não expressar é uma indignidade, não se esqueça. Vc sobreviveu há tantas coisas duras em 41 anos e vai sobreviver a mais uma. Vc nunca desistiu nem em pensamentos. Permaneça firme,eu estou aqui com vc sempre. Confia. Vai acabar pq está escrito assim e vc sabe.Eu te amo por toda essa força da natureza que vc é e por esse sol que brilha em vc inteira. Que essa palavras selem o seu nome caminho. Eu sou a pessoa que vc sempre buscou.




quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

Sussurros



Mais uma manhã de sussurros. Acordo com a sensação de que vaguei demasiado, falei demasiado e ouvi bastante coisas. Acordo com a sensação de que mais um item foi colocado em minha bolsa, que mais um ensinamento foi compreendido. Porém, se pedirem para que eu diga tudo o que sinto depois do sussurro, com palavras audíveis, eu não saberei fazer. Não sei explicar, mensurar, contar.

Por vezes penso que é apenas a minha imaginação.

Mas há uma parte de mim que sabe, que sente, que crê.

Há dias que ainda não sei quando se dão num padrão, que a minha voz fala por conta própria,com a propriedade de séculos de estudos e experimentações. Há vezes que minha voz se levanta e diz não, quando todos dizem sim. Há momentos que minha voz é assertiva em suas colocações e eu vejo as pessoas fugirem de medo. Mas sei que essa voz diz a verdade. Eu sei. De repente muitas coisas eu simplesmente sei ou simplesmente compreendo como quem relembra algo há muito esquecido e não tocado pela memória. E a mente racional insiste em indagar como eu sei o que sei.

 Há momentos que me sinto muito só nesse sentir. Quando tento dizer, vejo cabeça balançando em concordância e almas se fechando em discordância. Eu vejo.

Olho para os lados e me parece que todos dentro do Caminho, sabem o que estão fazendo e sinto que eu esteja brincando com coisas que não entendo. Sei que é o racional querendo sempre se sobressair e que no momento do Sussurro é hora de abandonar tudo.

 Humana, demasiado humana eu sou.

Há que se deixar essa humanidade de lado por um momento e receber o sussurro até que ele se torne audível. Mas sei que é o sussurro quem decide se gritará ou não.

Sinto-me um receptáculo.

Sinto-me velha num sentido bom da palavra. Uma velha encarquilhada pelo tempo de sono e que precisa falar. Mas quem ouvirá?

Nas manhãs de sussurro, acordo com dúvidas e com certezas, acordo com uma mistura de sentimentos que não podem mais serem varridos para debaixo do tapete. Num mundo onde tantos têm sonhos lúcidos, palpáveis e cheios de enredo, cores, movimento; eu acordo apenas com sussurros frágeis como fumaça de incenso. E o corpo que queima por um reconhecimento de algo que não sei nomear.

Ontem antes do sussurro de hoje, sentei e meditei. Quantos anos não faço isso? Foi diferente, foi poderoso e foi rápido. Estou só como nunca estive antes e essa solidão não me dói. Ela me abraça. O sussurro pede, eu faço.

Talvez seja bobo da minha parte, mas eu só gostaria de saber: o que é e de onde vem esse sussurro e por que comigo é assim.....


Abraço o sussurro. Abraço a mim. Abraço o que não conheço. É isso o que eu tenho. Aceito.

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

Quando Ela fala



Essa noite eu tive um sonho curioso e não é a primeira vez que ele aparece para mim. Sei que esse sonho veio por conta de questões que estão martelando na minha cabeça desde o ano passado e que resolvi encarar mesmo temendo. Sei que esse sonho veio por conta das minhas jogas de tarot para mim mesma e do tanto que as cartas tem batido nessa tecla. Mas sei também que, essa é a forma que os meus eus ( que tenho buscado) tem encontrado de me alertarem de coisas.

Sonhei que Aset (Ísis,a Deusa) estava me ensinando a maquiar os olhos. Eu já nem sei quantas vezes já sonhei com isso! Dessa vez Ela era tão enfática que nem dava pra argumentar. Ela abria minha pouca maquiagem e me ensinava como fazer uma coisa rápida nos olhos e ainda pergunta o motivo de eu não fazer isso diariamente já que não tomava tanto tempo. Ora, assim como Ela eu sou rainha e mãe, fora a vida bruxa, então por que não? Contando assim é até engraçado, mas o tom dela é irrefutável!

E com isso eu fico pensando no que fazer comigo mesma. Tem tanta providencia física para eu tomar que nem sei por onde começar. Preciso trazer para o corpo o ritmo das minhas mudanças internas mas, confesso que a minha vida está tão burocrática com o final da UFES que não está sobrando muito tempo. Eu não sou multitarefa, não sou o tipo de pessoa que consegue fazer mil coisas no dia e dormir feliz 4 horas por noite. Talvez na próxima vida, nessa não deu para ser assim! Uma coisa é certa: preciso me cuidar mais e principalmente da minha saúde pois corpo e mente precisam estar em sintonia.

Outra coisa que o sonho me despertou foi a recordação do Oráculo de Aset desse ano: “A vocês é dado o Agora. O que vocês fazem do Agora está em suas mãos fazer. Façam-no, então, plenamente e com todo o amor que possuem."


Uma coisa é certa: assim que eu assinar o papel da colação de grau, tudo me será devidamente cobrado, pois a licença chega ao seu fim. Espero ter firmeza para me manter em pé.

quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

Tudo passa

Perdão sempre foi um osso duro de roer pra mim.  Eu sempre tive regras muito rígidas sobre esse assunto, aliás eu sempre tive regras rígidas sobre muita coisa. Muitas das minhas regras rígidas começaram a ser maláveis como água ou irem ao chão e morrerem. Acho que amadurecer é isso. Não posso deixar de frisar que esse passo na minha vida ganhou um catalisador muito importante com o aprendizado que obtive com a moça do blog Elemento Chão.

Bom, nesse meu hiato e nesse meu aprendizado mágico, a minha centralização em mim mesma foi tão grande e intensa, que simplesmente esqueci determinados rancores. Através da nomeação de cada um dos meus monstros, pude perceber que a maioria já era velha, caquética e insistia em me consumir sem eu mesmo saber mais o motivo. O tempo é sim o melhor dos remédios e a coragem a melhor as companhias.

Percebi que posso duas coisas: colocar pontos finais e dar chances mesmo que não as receba
 E sem me magoar no trajeto. No decorrer do texto espero dar os melhores exemplos dessa minha postura.

Concomitante a essas descobertas e à minha maternidade, abracei suavemente o feminismo e com isso, o entendimento da palavra abuso teve grande importância para mim. Percebi que eu estava dentro de uma relação abusiva de amizade. Pode isso? PODE e como pode!!! Temos a romântica idéia de amigos são como irmos que escolhemos e todo aquele discurso bonito que cerca o assunto.Será que isso mesmo? Bom,pra mim não é bem assim e comecei a separar as relações de amizade e fraternidade cada qual no seu respectivo quadrado e sem desmerecer nenhuma. Até pelo fato de que toda amiga que se colocou um dia no lugar de irmã,acabou não dando certo. Comigo isso não funciona muito bem até talvez, pelo meu não bom relacionamento com minha irmã. Mas, a gente se ilude e ok. A gente se permite um bando de coisas que não gostaria pois , com óculos cor de rosa de afeto, não percebemos que por trás de um bem querer, existe aquele costume estranho da pessoa querer nos mudar para quilo que ela acha correto e que obviamente, nos fará bem. E o tempo passa , sentimos um incômodo e obviamente, o errado somos nós. Mas aquele sexto sentido tenta nos dizer: mulher,tem algo errado nessa amizade aí,acorda!”O incômodo passa para desconforto, mas ainda achamos que somos nós o errado na equação. Aí chega aquele momento que muitas amizades passam: o conflito severo, o erro, o engano, o vacilo, aquele passo errado achando que está certo. Ás vezes é importante para um e nem é tanto assim para o outro, cria-se a oportunidade de botar as cartas na mesa e ver o que está acontecendo. E a amizade acabou ali.

E foi assim que perdi uma amizade que julguei grande e absoluta.E certamente a reciproca é verdadeira. Um erro que cometi,não nego, mas que julguei ser o certo a fazer. E no fim,aquilo que me impossível e perdoar: tentativa vil de tentarem me humilhar. Jamais direi que não errei, Todos os deuses me são testemunha. Porém, jamais permitirei que me humilhem de caso pensando. Sim, foi caso pensando e palavras muito bem escolhidas. Acabava ali, toda e qualquer laço afetivo entre as partes. E acabava ali a última gota cor de rosa da minha visão e pude, com o passar do tempo,perceber que existia sim uma amizade,mas em paralelo existia uma vontade bondosa, de me fazer de mudar, de me fazer ser mais, de elevar ao máximo o meu potencial. Coisa à beira do absurdo como: não durma de pijama de bichinhos, pois seu marido casou com uma mulher adulta. Sim, senhoras e senhores, eu ouvi isso. E não, senhoras e senhores, e não segui esse belo conselho. Quando a última ficha cai,segue-se um sentimento muito esquisito e eu acho sim, que era  abuso.

Amizade tem que ser leve.


Outro caso, esse mais feliz para mim (pq eu só sei do meu mundo), é o que envolve  perdoar, esquecer,aceitar o próprio erro e se me chamar para tomar cerveja eu vou. Esse sentimento é o que mais me surpreende e mais me dá orgulho de mim. É exatamente isso: se me chamar para conversar eu vou. Mas por quê? Virei cristã e estou dando a outra face? Não. A explicação é: não se toma banho no mesmo rio duas vezes. Clichê,né? Sim, claro que sim! A vida é feita de clichês! Obviamente não vai rolar essa cerveja, pois existe outra pessoa envolvida além de mim(amizade é feita de duas pessoas,certo?). Esse sentimento meu, de não me importar com o que passou, não remoer e não  - complete aqui com qq coisa ruim -  me é tão precioso que não me importaria mesmo em sentar e conversar aquelas coisas de outrora e sem medo nenhum.

Sou da filosofia que ninguém precisar ser THE BFF ou amigo de infância. Acho que com 40 anos ninguém nem tem mais tempo para isso, além de ser meio chato. Eu adquiri um pensando sobre amizade que quero um dia compartilhar por aqui.

Ah,vc deve estar se perguntando: a reciproca é verdadeira?? A resposta é: não sei. Na verdade eu até acho que não. E sinceramente, eu quero curtir mesmo essa minha vibe boa e de coração leve, sem criar expectativas que não dependem de mim.


O que importa de verdade é que com esses meus novos posicionamentos perante a vida, novos amigos foram chegando no caminho e eu já não tenho mais aquele pensamento de que devemos viver juntos  até o fim da vida. Eu quero mesmo é acolher o que o caminho me traz. 

segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

Uma história nunca antes contada


E talvez essa seja a última vez que conto essa história..


Acabei com tudo
Escapei com vida
Tive as roupas e os sonhos
Rasgados na minha saída
Mas saí ferido
Sufocando meu gemido
Fui o alvo perfeito
Muitas vezes no peito atingido

Minha família é meio nômade por conta do meu pai que insistia em seguir sonhos alheios. Por conta disso, já moramos em alguns lugares e eu me considero de coração, mineira. Há 19 anos nós moramos no Espírito Santo e é a partir de nossa chega que essa história começa.

Eu tinha uns 20 anos e não queria vir. Jovem, maturidade zero, sem emprego e sem perspectiva de nada, vim para cá no cabresto da família. Obviamente estava revoltada, contrariada, não ouvida, ignorada. Hoje eu entendo a ignorância da família e essa parte já não me dói mais. Mas naqueles dias,tudo em mim era raiva e desgosto. Um animal ferido que não era ouvido em sua dor.

Animal arisco domesticado esquece o risco...

Não foram dias difíceis,foram anos difíceis. Hoje entendo que provavelmente a minha anestesia da vida,era uma depressão. Na época me virei como pude,sem dinheiro,sem eira nem beira, nãi tinha como ir a terapeutas,aliás,eu nem sabia o que era isso. Mas,vou tentar resumir a história e chegar ao que importa.

Quase todos os dias depois do trabalho,  eu ia à beira da praia chorar e me lamentar pelo meu triste destino. A mágia corrói o coração e a alma, tornamos verbo os sentimentos mais vis que um ser humano pode se  permitir ter.Mas, o que eu sabia naqueles dias? A solidão cobre com nuvens negras toda e qualquer possibilidade de luz e não enxergamos mais nada além da dor. Foram tempos tenebrosos.

O tempo passou e eu sobrevivi,como sempre sobrevivo.

Eu sei quanta tristeza eu tive mas, mesmo assim se vive...

Bons amigos vieram,bons amigos se foram. Conheci a  bruxaria e com ele um grupo de amigos que sem saber, trouxeram a luz de volta aos meus olhos. A vida seguiu novos rumos foram tomados. Maus amores vieram,bons amores chegaram. Casei e tive um filho.

Ter um filho me rasgou para o mundo, para o novo. É clichê, eu sei mas, foi o que se deu comigo.

Conheci boas pessoas que praticavam silenciosamente a Bruxaria Tradicional (sim,existe. Não,não tem blogs). Gente fora da mídia,fora de grupos, fora de holofotes ,com quem aprendi uma nova perspectiva da velha arte e entendi quem sou eu no antigo caminho.E foi nesse momento que minha ficha caiu sobre um erro muito grande.

Durante esse processo, certa tarde, fui a um círculo feminino e conheci uma mulher que também era forasteira e que contou coisas que me marcaram muito. Coisas sobre ser estrangeira num lugar não muito receptivo e o porquê sofremos com isso. Ela era praticamente de xamanismo há muitos anos e nos ensinou coisas simples e importantes sobre como agradecer até mesmo aquilo que nos dói. Estava enfim, montado o meu quebra cabeça emocional .

A primeira honraria que um praticante de bruxaria deve ter é pelo chão que pisa e que o alimenta. E o que eu fiz desde que cheguei aqui? Cuspi no prato que me alimenta e que aliás, me deu o amor da minha vida  e um filho! Fui ingrata. E percebi o quanto de atitudes de ingratidão eu estava perpetuando no meu cotidiano e não me dava conta. O primeiro sentimento que tive foi o de extrema vergonha, sentimento que aliás, odeio. Quis sair correndo batendo de casa em casa para pedir desculpas para as pessoas que atingi com meu comportamento ingrato. Não vou mentir, tenho um orgulho imenso e ter vergonha de algo que fiz me é bem humilhante. Porém, chega um momento que a gente engole seco e assume. Era eu comigo mesma, não tinha porque ter vergonha de mim! Precisava ter humildade suficiente para me perdoar, não cabia naquele momento ficar me culpando por uma situação que se arrastava por tempo demais. Precisava me livrar do peso!

Eu andei demais Não olhei pra trás Era solto em meus passos Bicho livre, sem rumo, sem laços

Decisão tomada: precisava pedir perdão formalmente para essa terra e reconhecer o quão generosa ela foi comigo mesmo sem eu merecer. Contei para uma amiga e carinhosamente recebi um ritual tradicional para honrar e pedir perdão ao solo que piso ( a bruxa mais incrível que já conheci até hoje) e não o fiz de imediato. Precisava amadurecer a ideia e o que eu queria. Faltava alguma coisa e eu não sabia o que era. O tempo passou, mas não mais esqueci.

Perto do meu aniversário de 40 anos, fui com minha pequena família à praia. Uns dez minutos depois de nossa chegada, ainda andando para encontrar um lugar bacana para ficar, o meu pé bateu num pedra. Gosto de recolher coisas da praia para colocar no altar da casa e pensei que era só mais uma pedra do mar. Para meu espanto não era uma pedra comum, era a boa e velha pedra furada. Há quanto tempo eu buscava uma pedra furada? Anos! E naquela manhã ela se jogou para mim. Para quem não sabe a pedra furada é um objeto importante para alguns caminhos mágicos e eu sempre quis ter uma. Aquilo me encantou de tal maneira que considero esse dia um dos mais felizes da minha vida. Senti que fui honrada com um belo presente do mar e dos seres que ali habitam e isso mexeu muito comigo.

Alguma coisa estava inquieta em mim e me separei das brincadeiras do marido e do filho, para me isolar sentada numa pedra.

Abra a sua mente e escute. Abra seu coração e sinta – dizia a voz do mar. Eu não sou sensitiva (detesto essa palavra, mas foi a melhor que encontrei), porém naquele dia, tive a percepção do outro lado muito clara, muito palpável e segui o fluxo. Precisava ouvir o que ouvi, ver o que vi, sentir o que senti para pode acreditar em mim e seguir adiante. E na simplicidade de não ter nada nas mãos fiz meu ritual, reconheci a força do mar, honrei a força mais antiga e poderosa de todo esse planeta azul. Eu que não sou feita de mar, fui recebida por ele e pela Senhora Iemanjá. Foi terrível deixar a mente condicionada de lado e receber a força das águas. Na minha mente eu bradava palavras, gesticulava poderosamente e forças se levantavam e segundo o marido, eu estava o tempo todo sentada olhando fixamente o mar. Foi simples, foi bonito e foi libertador. Quando voltei à realidade, peguei todas as coisas bonitas encontradas na praia e levei para casa. Montei um altar para Ela e aceitei a sua presença na nossa casa. Continuo não sendo do mar , não sou filha Dela, mas é minha obrigação honrar a força que move o mundo inteiro.

E ali, na beira do mar, “aprendi a perdoar e a pedir perdão”. A partir desse momento a minha vida tem um brilho diferente, ressignifiquei muitas coisas, assumi meu poder de transformação. Eu havia renascido magicamente.

Me senti sozinho Tropeçando em meu caminho À procura de abrigo Uma ajuda, um lugar, um amigo

Quando completei 40 anos, fiz um ritual de fala e escuta na praia com o máximo de mulheres importantes na minha vida e que consegui juntar. Sentei e ouvi.Eu precisava saber quem eu sou através dos olhos de outras pessoas. Ali,mais uma vez no mar,selei meu caminho. Mas essa é uma conversa para outro momento.



Esse post foi escrito ao som de Fera Ferida na voz de Maria Bethânia.