quinta-feira, 25 de setembro de 2008

Beleza

Uma das mais belas imagens que já vi aconteceu no banheiro de minha tia Aída, num antigo casarão da Tijuca. (...) e foi assim que um dia eu vi tia América e tia Aída dando banho na minha bisavó Luiza.

Nessa ocasião Luiza já tinha completado um centenário. Minhas tias, receosas de algum acidente, colocavam uma bacia enorme no centro do banheiro para nela banhar minha bisavó.Depois de pô-la de pé , enquanto América a escorava (sob protestos de Luiza), Aída a ensaboava com um delicioso sabonete de alfazema, tomando muito cuidado com os seus tornozelos por causa de uma erisipela que acompanhou Luiza por muitos anos.

Embora soubesse desses banhos, eu nunca tinha assistido a nenhum deles. Mas naquele dia,além de assistir, fui convocada a segurar a toalha felpuda que enxugaria Luiza. Entrei no banheiro e a imagem daquela cena apagou toda a minha ranzinzice adolescente por ter que realizar uma tarefa. Ali dentro de uma brilhante bacia, bem no centro de um piso alvo de mármore, estava Erda,a antiga deusa germânica, senhora da sabedoria e da fertilidade da terra, cuidada por fieis sacerdotisas. As dobras de gordura da deusa, em vez de causar a rejeição moderna pela obesidade, desenhavam montanhas, ilhas e cordilheiras. Os cabelos brancos, longos, brilhantes e sedosos mesclavam-se com a alvura do mármore e as linhas do sol, iluminando todo o banheiro como se lá estivesse a própria lua cheia. O aroma do sabonete de alfazema, unido as notas da ária que Aída cantava, explodia nas bordas da bacia tal qual ondas na areia.

Naquele instante, Luiza ou Erda, não era apenas uma senhora a ser banhada pelas netas e a bisneta; era, sim, a sabedoria da Terra a nos banhar e a nos impregnar com a essência mágica do feminino.

Ao final da ultima água, Aída encheu de novo a bacia e dissolveu sais de banho na água transparente. Com delicadeza, despejou sobre o corpo de Luiza, deixando no ar um cheiro de jardim recém florido. Depois me pediu a toalha e envolveu Luiza numa nuvem felpuda. Após o banho, ao sair do banheiro, Luiza, a senhora centenária, era a própria encarnação de Afrodite!

Marcia Frazão no livro A Casa da Bruxa

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