sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Deméter

[...] esta ,ao mirar meu rosto,trouxe-me a lembrança de Daniel aninhado,pela primeira vez,em meus braços.Percebendo minha profunda emoção,a mulher me disse estas palavras: "eu senti a mesma coisa quando Perséfone me veio aos braços pela primeira vez!"

No momento em que escutei suas palavras,me dei conta de que Deméter estava à minha frente.Mas... não era possível!Não era a representação feminina que eu atribuia à Deméter! Sua beleza nada tinha a ver com "o avental todo sujo de ovo", os olhos irritados pelas cebolas e a lamúria solitária das mães! À minha frente encontrava-se uma mulher centrada e em perfeita harmonia com sua condição.

Percebendo meu espanto, Deméter sorriu e me disse: " Eu já estou habituada com a leitura equivocada da minha história. Você foi mais uma a interpretar de maneira errada. Na história não está dito que eu sou descabelada,negligente com meu próprio corpo e tampouco uma mãe possessiva e neurótica. Você leu a história e adequou-a aos seus próprios problemas. Criou uma outra Deméter e passou a acreditar que ela era eu."

Deméter estava com a razão. Não havia nada na história que afirmasse que ela era desprovida  de atrativos, que era uma mulher amargurada,chantagista e fechada em seu próprio sofrimento. decididamente, eu havia interpretado mala  história e criado um novo arquétipo.

Marcia Frazão no livro A Panela de Afrodite.

PS: eu não sei de quem é essa imagem,mas é linda!

3 comentários:

Israel Martins disse...

Adorei. :) E fica a reflexão; quantas vezes não 'arquetipificamos' deidades, entidades e espíritos? Desde Deméter até o Diabo, passando até por nossos ancestrais, quando se vão...

ArtemisMelissa disse...

oi melamor! descobri a imagem, é a ceres de jean francois millet, 1864 ou 65.

Cassia disse...

eu tenho esse livro! o texto que precede as receitas, que são todas gregas (tinha até esquecido, que interessante, hehehe) é bacana. eu gosto da marcia frazão, aprendi tanta coisa com os livros dela...