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quarta-feira, 13 de junho de 2018

Seja bem vinda!


Era o primeiro dia de curso e eu não lembro bem da dinâmica, eu só sei que disse: quem cuida do cuidador? E eu recebi o olhar mais amável de uma mulher que admiro muito. É certo que chorei.  Ali se iniciava o curso de Ginecologia Natural que está mudando pouco a pouco a minha visão de muita coisa.

Todos os oráculos, dia após dia, tirada após tirada, sussurro após sussurro me mostram o caminho da cura. E eu inocente ( ou prepotente?) que sou, achava que iria curar pessoas. Não minhas amigas, não tão simples e nem tão rápido: eu que estou precisando começar e terminar um ciclo de cura e eu tive a certeza disso da forma mais dura: adoecendo. Não vem ao caso contar como tudo se deu e sim como eu lidei com isso.

Quando algo da nossa saúde nos é tirado sem aviso prévio é ... desesperador. Em minutos tudo muda e decisões precisam ser tomadas. Mais uma vez a vida me colocou em xeque . Em momentos como esse eu sempre me lembro de uma passagem da saga As Crônicas de Gelo e Fogo (mais conhecida como Game of Thrones) em que Sirio Forel está ensinando minha heroína favorita a manejar uma espada e que se tornou um dos meus lemas de vida

Não,eu não quase morri.Calma!


Eu fiz uma escolha consciente e lúcida de enfrentar e agarrar tudo o que fosse bom , além de acabar definitivamente com tudo o que estava me impedindo de viver. E quando digo viver é bem no sentido amplo da palavra. Eu estava num processo frenético de estudos acadêmicos de longa data, emendando uma graduação na outra, nunca ficando parada por medo de me sentir inútil, sempre arrumando algo “importante” para ser feito. Sem perceber, o ritmo louco passou de gostoso para torturador, as noites de insônia começaram a ficar mais frequentes e os sorridos mais escassos. Ahh, já já acaba era meu lema. E nunca acabava. O corpo já mandava avisos há algum tempo, providencias médicas eram tomadas e o ritmo continuava, afinal já estava quase acabando. A única coisa que me orgulho é não ter chegado ao ponto de tomar medicações que me dopassem. Eu gosto da realidade, por pior que ela seja.

Certo dia meu corpo tomou a decisão por mim: ou vai ou vai ,porque assim não dá mais.
Na sala de espera da vida, a mente deu a vez para o coração e se retirou para descanso. O coração colocou um xale sobre a mente e disse: descansa que eu cuido aqui. Na hora certa, trabalhamos juntos. Até lá, sossegue.

E eu percebi que esse ritmo já vinha num crescente há quase 10 anos. Eu me perguntei: o que vale a pena? O que eu quero de verdade? Onde eu quero estar? Com quem eu quero estar? E o principal: o que eu quero fazer?

Eu quero cura!!

Outra pessoa no meu lugar estaria chorando. Eu estava rindo, gargalhando e alívio! Eu estava em poucas horas voltando a ser eu. E como quem volta de uma longa viagem, abri as janelas de todos os cômodos e coloquei uma boa música para dançar. Me abracei forte como quem sente saudade.  Por uns dias me senti uma estrangeira num trem de destino desconhecido. Aos poucos , tateando aqui e ali, reconheci o cenário. Entre uma xícara de café e outra, entre gargalhadas com meu filho e marido, tomei a decisão de não decidir nada.

Esse final de semana tive mais ensinamentos de cura com o curso de Ginecologia Natural. E com aquelas meninas tão novas, tão crédulas, eu resgato a pessoa que vim para ser nessa vida de agora. Deixo voar para o centro do círculo o melhor de mim, recebo afeto que cura minhas feridas do corpo e espírito. E tal como uma xamã, renasço para poder servir.

E eu descobri que eu não sabia me acolher. E me acolhi. E me recebo todos os dias.

Agora eu tenho duas datas de nascimento: 1977 e 2018.



Um comentário:

Brisa disse...

Belíssimo Iony! Saudades! Parece que me abraçaste também! Obrigada! Beijos e brisas! Carla